O cenário internacional no início do Século XXI
Rubens Barbosa, presidente do Conselho Superior de Comércio Exterior da FIESP, ex-embaixador do Brasil nos EUA e na Grã-Bretanha
Sinopse
Quais as principais tendências no cenário político e
econômico-comercial mundial e as perspectivas para o futuro imediato?
Para se desenhar esse panorama geral, a ênfase recai sobre os EUA, a
emergência da China e da Índia, o conflito no Oriente Médio
e o Iraque. Em complemento, se analisará como o Brasil se posiciona em
relação ao novo cenário internacional e na América
do Sul.
Palestra realizada em 1º de junho de 2005
Compreender os fatos em conjunto para se tornar vencedor
Os que entenderem a rápida e radical transformação por que passa o cenário internacional se tornarão vencedores. Para fazê-lo, temos de ver o mundo como ele é, não como gostaríamos que fosse. Temos também que compreender que os fatos que atualmente exercem influência direta no cenário internacional estão articulados, embora, quando lemos jornais, assistimos aos noticiários, vejamos fatos isolados.
O fator demográfico
A taxa de crescimento demográfico no mundo é cada vez mais importante: a Europa envelhece. Na Alemanha e na França, ela está abaixo de 1%, o que significa decréscimo da população. No Japão, a previsão é que dentro de cinqüenta anos a população será a metade de hoje. No Brasil, a taxa atual é de 1.2% A isso se acrescenta que a expectativa de vida aumentou devido aos avanços da medicina. O impacto econômico da queda da taxa demográfica e da perspectiva de vida mais longa é enorme. Como as pessoas vivem mais e recebem pensão por mais tempo, é preciso reformas na Previdência Social no mundo todo. Outro aspecto da redução da taxa demográfica é o fato de que, na Europa e nos Estados Unidos, começa a surgir a perspectiva da importação de mão-de-obra, que, por sua vez, contraria a perspectiva nacionalista que, contrariamente às expectativas de um mundo globalizado, tem emergido.
Recursos naturais e meio ambiente
Não é preciso enfatizar a importância desse fator nas relações internacionais. Basta lembrar a perspectiva de escassez de água na Síria, Líbano e Israel, onde há conflitos potenciais. Uma das teorias sobre a guerra dos Estados Unidos no Iraque era a da necessidade da superpotência em ter bases naquele território, por causa do petróleo. Também há disputas no Oriente Médio, na Ásia Menor, nos países da ex-União Soviética, na Costa da África, em função do petróleo. A Bolívia também preocupa, pelos conflitos criados por causa do gás natural. Petróleo, gás natural, água e o etanol já têm peso importante no cenário internacional, e terão ainda mais dada a combinação da necessidade desses recursos e os cuidados de preservação do meio ambiente. Assim, energia combinada com meio ambiente fazem parte do jogo que se constrói entre as nações.
Ciência e tecnologia
Vivemos numa era em que educação e recursos destinados a ciência e tecnologia são decisivos. Nos países desenvolvidos as políticas definidas no setor impulsionam o dinamismo da pesquisa: 80% das pesquisas é feita por instituições privadas e 20% por instituições oficiais. No Brasil a taxa é a inversa. Sem uma política dinâmica que priorize o investimento privado, aumentam os hiatos entre países desenvolvidos e países em desenvolvimento.
Economia global e globalização
A transformação da economia nos últimos dez ou quinze anos é um fato: a interdependência dos países, as grandes redes financeiras, comerciais e econômicas, que se formaram e se consolidaram. É necessário ajustar-se a essa tendência, e o Brasil tem dificuldades nisso. O que determinará o rumo dos países será conseguir atrair investimentos.
Governança nacional e internacional
Importa na geopolítica nos próximos anos saber como os governos atuam e atuarão em relação a novos e velhos problemas – drogas, corrupção, aplicabilidade das leis – em âmbito tanto nacional quanto internacional.
Conflitos atuais e futuros
O curso dos próximos anos será determinado pelo destino dos conflitos atuais: haverá um Estado palestino? A instabilidade da região gera instabilidade econômica no mundo, em função da importância do petróleo. Além desse, há vários conflitos no Irã, na Coréia do Norte, na Ásia Central; na América, conflitos internos podem se tornar mais complexos (Venezuela Colômbia, Bolívia, México).
A unipolaridade: Estados Unidos
Desde o final da Guerra Fria, com a queda do Muro de Berlim, os Estados Unidos são a única superpotência. O mundo, que era bipolar, tornou-se unipolar. Isso se tornou dramaticamente evidente após 11 de setembro. O ataque ao território continental visando aos símbolos do poder americano representaram um choque emocional e político da maior violência. Alterou-se a política externa e militar americana, como se pode ler na Estratégia de Segurança Nacional escrita por Condoleza Rice: Os interesses do governo norte-americano serão defendidos pelas forças armadas, desde que haja percepção de ameaça. A doutrina americana é, agora, a do ataque preventivo. Todos vimos, na televisão, os foguetes atingindo o Afeganistão, a pirotecnia da guerra do Iraque e o inopinado do ataque, numa demonstração da unipolaridade norte-americana.
China
Se os Estados Unidos são a única potência militar e estratégica, a China tem emergido como potência econômica, comercial e, daqui a alguns anos, militar. A China vale-se de uma atuação econômica e comercial agressiva. Talvez o país seja atualmente o principal financiador dos déficits americanos, hoje recordes, insustentáveis a médio e longo prazos. Além disso, os Estados Unidos aceitam o comércio com a China, que em dezenove anos saltou de 3 bilhões e meio para 150 bilhões.
Os três níveis em que o cenário internacional está consolidado
O primeiro nível é a unipolaridade. Os Estados Unidos são a única superpotência mundial e, nas decisões políticas, aplica o princípio da unilateralidade nas decisões políticas. O segundo nível é a multipolaridade na economia, pois os Estados Unidos não detêm o controle da economia mundial nem conseguem impor-se unilateralmente. Nosso terceiro nível refere-se à poliarquia, que domina: na área política e diplomática, em que a hegemonia americana não é absoluta.
Reflexões sobre a situação do Brasil no contexto internacional e regional
A situação multipolar e politicamente fragmentada favorece a inserção brasileira mais ativa, como está ocorrendo hoje na política externa brasileira, com alguns elementos novos, como a ênfase na relação Sul-Sul: o eixo da política comercial exterior brasileira está mudando devido à aproximação com os países do Sul. Ela ajuda na mudança da geografia econômica mundial.
Brasil e comércio exterior
O Brasil está muito bem colocado no comércio exterior, principalmente com os Estados Unidos, União Européia, América do Sul, China e Japão (índice de 85%), e empreende vários esforços de complementação. Nas relações comerciais, o Brasil tem ampliado sua rede de participações. Também tem se colocado à frente dos países que propugnam pela mudança no sistema multilateral (reformas nas Nações Unidas e ampliação do Conselho de Segurança). O Brasil se empenha pela reforma do Fundo Monetário e do Banco Mundial.
Brasil e relações políticas internacionais
O Brasil começa a ensaiar alguns passos na área política, avançando numa política pró-ativa na região da América do Sul. Visto com potência regional, o Brasil tem de assumir suas responsabilidades, já que nosso peso econômico implica importância política regional. Depois da assinatura do NAFTA, a geografia do hemisfério mudou. Por isso, é tão importante que se cumpra o tratado do Mercosul. Os países da América do Sul, sobretudo os do Norte, voltam-se para o mercado americano, de onde se origina a resistência ao Mercosul. Mas, desde 1985, a política externa brasileira voltou sua atenção para a América do Sul e vem desempenhando papel importante. Também na área energética e de infra-estrutura, a necessidade de integração da América do Sul é evidente. A inserção do Brasil no mundo globalizado passa pela relação Sul-Sul (perspectivas de integração entre África do Sul, Índia e Brasil; vontade política de aproximação com Rússia e China, articulações com a cúpula árabe) visando à diversificação comercial, que diminui nossa dependência dos mercados americano e europeu.
Os dois principais fatores do cenário internacional atual
De 1945 até hoje, o mundo se alterou, e certas estruturas de poder estão superadas. Há novos atores no cenário internacional. Por isso, é necessário pensar que as perspectivas internacionais nos próximos 15 anos supõem o conhecimento de dois fatores centrais: (1) O aprofundamento da globalização como ideologia e como processo. Quem não jogar de acordo com as regras desse processo, se tornará perdedor e estará fora do ciclo dinâmico do crescimento mundial. (2) Multilateralismo e regionalismo econômico. Embora, com a globalização, se pudesse imaginar um mundo unificado, não é isso que ocorre. Há enfraquecimento do multilateralismo e fortalecimento do regionalismo econômico, com profundas conseqüências internacionais. Além disso, é preciso enfrentar outras fontes de instabilidade e incerteza em aspectos novos, como, por exemplo, a emergência de povos indígenas, a dívida na Argentina.
Cenário para 2020
Segundo o National Intelligence Council da CIA, Índia e China emergirão como potências político- econômicas; Rússia, Brasil e Indonésia como potências econômicas; os Estados Unidos, Europa e Japão perderão parcialmente seu poderio. Se aceitarmos as conclusões desse trabalho, temos de nos perguntar o que estamos fazendo para nos tornarmos potência em 2020. A Índia e a China têm uma agenda para isso. Nós a temos? Além disso, qual seria a conseqüência política, diplomática e comercial se tornássemos potência econômica mundial? As interrogações ficam em aberto para nossas reflexões.
Sobre os resultados do plebiscito na França e da Holanda recusando a Constituição Européia
Ao contrário do que se imaginou, a globalização fez emergir na Europa um nacionalismo crescente e movimentos de antiglobalização. Desse ponto de vista, o plebiscito revelou que a idéia da Constituição Européia soou como uma imposição e assim a integração política da Europa sofreu uma derrota em nome dos valores nacionais.
Sobre os conflitos Estados Unidos e Iraque
Para os Estados Unidos, a real motivação do conflito era dupla: realizar o que não se conseguira na primeira guerra no Iraque – destituir Saddam Hussein – e as reservas estratégicas de petróleo. O resultado cria grande instabilidade internacional também porque o país agora é foco do terrorismo internacional. Embora no segundo mandato de Bush se coloque como prioridade o fortalecimento da democracia no mundo, em toda a região há apenas uma aparência de mudança, até porque a democracia não é entendida do mesmo modo como nos países do Ocidente.
Sobre o conflito Palestina e Israel
Entendo que o cenário mudou e que Bush pretende deixar o governo daqui a 3 anos com a única solução possível para o Oriente Médio: a criação do Estado palestino.
Sobre as relações Brasil – Chile
Nossas relações com o Chile são crescentes, de lado a lado, no entanto, o Chile negociou um acordo de livre comércio com os Estados Unidos que lhes oferece tarifas preferenciais. Isso terá de ser negociado visando minimamente a equiparação das tarifas para o Mercosul.
Sobre a emergência do poder indígena
A emergência do poder indígena criou grande instabilidade, cuja resolução dificilmente se dará em curto prazo. Se, de fato, o referendo sobre a independência em Santa Cruz de la Sierra resultar na criação de províncias autônomas, poderá haver guerra civil: Além disso, o pedido de vinculação dessas províncias ao Brasil traria complicações internacionais evidentes.
Sobre a condução do processo na China
A China é a grande atração internacional. Seu objetivo, de se transformar na maior potência do mundo, tem uma agenda econômica determinada. Mas a superpopulação da China 1 bilhão e 300 milhões exige pulso firme no controle político e econômico. A China aprendeu a lição da ex-União Soviética: não é possível fazer Glasnost e Perestroika, isto é, reforma política junto com reforma econômica.
Sobre o Brasil, perspectivas e contradições
Temos sempre o sentimento de que seremos uma potência. Povo, governo, empresários atuam com esse pensamento. Há 40 anos discutíamos se seríamos o primeiro dos últimos, ou o último dos primeiros. Hoje, não se trata mais disso: corremos atrás da Índia e da China. Queremos superar nosso prejuízo no Terceiro Mundo. O Primeiro está em outro mundo. Se há a percepção externa de que podemos nos tornar superpotência, nós mesmos não temos pensamento estratégico, não temos agenda nem objetivo determinado. Teríamos inicialmente de terminar as reformas (trabalhista, política, previdenciária) e inovar a pesquisa. Temos de discutir nas várias instituições a agenda que precisamos criar. Quanto a nossa desigualdade social, é preciso constatar que em 100 anos e em meio a todas as diferentes políticas, não houve alterações no desequilíbrio social. Só programas – sérios e não assistencialismo – resolverá a brutalidade da diferença social. Em 1888, no quadro pós-abolição, dois terços da população era analfabeta e sem renda. Hoje a proporção persiste na mesma linha. Uma linha reta.