Gênero: Dissertação
Tema: Vunesp 2006: Ciúmes
O "DEMÔNIO" DOS CIÚMES
Quaisquer que sejam os pontos de vista em que se achem colocados os psicólogos para estudar os vários aspectos do ciúme, é comum nas suas conclusões o caráter profundamente disfórico, molesto e torturante de sua vivência. O próprio Santo Agostinho, em suas "Confissões", afirma que era "flagelado pela férrea e abrasadora tortura dos ciúmes"; antes e depois dele, a Literatura e a História coincidiram em conceder-lhes a categoria de "máximo tormento" e, mais recentemente, a Psicologia o confirma, ao analisar o ressentimento, que é seu ingrediente básico.
Efetivamente, se de algum modo se pode caracterizar o estado do Ser ciumento é definindo-o como uma perseverante e complexa frustração: sente amor e julga-se não correspondido (ou, o que é ainda pior, falsamente correspondido); sente raiva, mas compreende a ineficácia de demonstrá-la; sente temor e não pode fugir; sente, pois, intensamente, uma necessidade de ação, e, simultaneamente, percebe sua impotência, desde que a solução do caso não depende dele e sim dos outros ... e não consiste precisamente em "atos" mas em "sentimentos"... que não podem impor-se nem suprimir-se, que não obedecem a razões nem coações... Assim, o Ser que é devorado ou consumido pelos ciúmes vive em perpétua tensão, sem poder assumir uma atitude mental definitiva, bamboleando-se continuamente entre a fé e o desespero.
Os ciúmes são vividos de modo diferente pela mulher e pelo homem, e também o são, em cada sexo, de acordo com o tipo de Amor.
(Emilio Mira y López. "Quatro gigantes da alma". 1966.)
NAS GARRAS DO CIÚME
Atire a primeira pedra quem nunca se sentiu enciumado, ainda que tenha mantido o fato em segredo. Sutil ou avassalador, esse é um dos sentimentos mais contundentes do ser humano. Talvez por isso seja fonte de inspiração para escritores e compositores. O ciúme está no centro do inferno emocional de Bentinho, personagem esculpido por Machado de Assis no romance "Dom Casmurro" que passa os dias dominado por incertezas e fantasias sobre a possível traição da idolatrada Capitu. Em "Otelo", de William Shakespeare, ele é o "monstro de olhos verdes" que leva ao assassinato de Desdêmona. Na música, também não faltam exemplos. "O ciúme foi cantado por Orlando Silva, Roberto Carlos e Caetano Veloso, entre tantos outros", lembra Luiz Tatit, compositor e professor da Universidade de São Paulo (USP). E, claro, não há novela que não leve um toque dessa pimenta nas relações.
Na vida real, o ciúme é um dos temas que aparecem com freqüência nas conversas com amigos, nas sessões de terapia. É compreensível. Afinal, no dia-a-dia, é difícil ignorá-lo. "É natural sentir ciúme. É como sentir dor ou fome", diz o especialista Ailton Amélio da Silva, da USP. Também é verdade que, no Carnaval, o monstro ataca com volúpia. Em sã consciência, nessa época de barriguinhas lindas à mostra, quem deixaria o parceiro passar o feriado sozinho? No entanto, para desespero dos mais preocupados, além do Carnaval e das situações comuns que podem ser estopins de uma crise, como uma simples ida a um restaurante, surgem outras capazes de despertar o monstro. As imensas possibilidades de contato com outras pessoas abertas pelas relações virtuais estão entre elas. Não é exagero dizer que as novas ferramentas de comunicação da internet estão para o ciúme como a gasolina está para apagar incêndio. O Orkut, por exemplo, é uma janela para o mundo que permite fazer contatos ou reencontrar antigos amores. Mas, para quem tem tendência ao ciúme, é mais uma trincheira de briga. Em geral, por causa de recados deixados nas páginas de visita. O correio eletrônico é outro cenário que atrai desconfiados decididos a escarafunchar as mensagens eletrônicas atrás de pistas de traição.
O sentimento também se infiltra nas baladas. Por trás do clima aparentemente descomprometido das festas, estão jovens que muitas vezes não se dão o direito de admitir o desconforto quando o parceiro acha nova companhia. O que a moçada tenta fazer é administrar a situação. Na verdade, na geração adepta do ficar (trocar carícias sem compromisso), o ciúme perdeu espaço. "O ficar transformou a relação com o ciúme, que se mantém mais escondido", avalia o psicólogo Ailton.
( ISTOÉ. "Nas garras do ciúme". 09.02.2005.)
PROPOSIÇÃO: Os textos apresentados como base para esta redação colocam a questão do sentimento do ciúme. Este sentimento, que pode tornar-se muito intenso e perturbar o comportamento do indivíduo, surge em todas as formas do relacionamento humano, mas é particularmente notável na relação amorosa, o que explica a freqüência com que é abordado na literatura e na arte. Os textos "Vingança", "Olhos no Olhos" abordam igualmente a questão do ciúme e de outros sentimentos a ele associados, que podem assumir bastante intensidade durante a relação ou até mesmo após a separação do casal. Com base neste comentário e, se julgar necessário, nos textos mencionados, faça uma redação em prosa, de gênero dissertativo, sobre o tema O SENTIMENTO DO CIÚME EM NOSSAS RELAÇÕES.
VINGANÇA
Eu gostei tanto,
Tanto quando me contaram
Que lhe encontraram
Bebendo, chorando
Na mesa de um bar.
E que quando os amigos do peito
Por mim perguntaram
Um soluço cortou sua voz,
Não lhe deixou falar.
Eu gostei tanto,
Tanto quando me contaram
Que tive mesmo de fazer esforço
P'ra ninguém notar.
O remorso talvez seja a causa
Do seu desespero
Ela deve estar bem consciente
Do que praticou,
Me fazer passar tanta vergonha
Com um companheiro
E a vergonha
É a herança maior que meu pai me deixou;
Mas, enquanto houver voz no meu peito
Eu não quero mais nada
De p'ra todos os santos vingança,
Vingança clamar,
Ela há de rolar qual as pedras
Que rolam na estrada
Sem ter nunca um cantinho de seu
P'ra poder descansar.
(Lupicínio Rodrigues. "Vingança".1951.)
OLHOS NOS OLHOS
Quando você me deixou, meu bem
Me disse pra ser feliz e passar bem
Quis morrer de ciúme, quase enlouqueci
Mas depois, como era de costume, obedeci
Quando você me quiser rever
Já vai me encontrar refeita, pode crer
Olhos nos olhos, quero ver o que você faz
Ao sentir que sem você eu passo bem demais
E que venho até remoçando
me pego cantando
Sem mais nem porquê
E tantas águas rolaram
Quantos homens me amaram
Bem mais e melhor que você
Quando talvez precisar de mim
'Cê sabe que a casa é sempre sua, venha sim
olhos nos olhos, quero ver o que você diz
quero ver como suporta me ver tão feliz.
(Chico Buarque. "Letra e música". 1989.)